Por Editorial Hunter House · 19 de outubro de 2026
O caso mais citado fica na Praça Vilaboim. O Edifício Louveira, concluído em 1946, foi projetado por João Batista Vilanova Artigas com o ex-aluno Carlos Cascaldi. São duas lâminas paralelas, uma de sete e outra de seis andares, ligadas por um jardim interno. Os pilotis soltam os blocos do chão e deixam o térreo para a circulação e para o verde, de modo que quem passa pela praça vê o jardim atravessar o terreno.
A ideia de um térreo aberto, tratado como espaço comum, acompanharia Artigas por toda a carreira. No Louveira, ela já aparece inteira. O edifício é tombado pelo Condephaat, na esfera estadual, e pelo Conpresp, na municipal. Em 2019, o conselho municipal voltou atrás numa decisão que permitiria construções mais altas no entorno da praça, justamente para preservar a leitura do prédio a partir da rua.
A poucas quadras dali, na Avenida Higienópolis, o Edifício Prudência traz outra assinatura. Projetado por Rino Levi com o sócio Roberto Cerqueira César na década de 1940, ele tem o jardim do térreo desenhado por Roberto Burle Marx, que estendeu os canteiros por baixo dos pilotis e sobre a laje da garagem. Levi e Burle Marx foram amigos e parceiros por décadas. No Prudência, a paisagem deixa de ser moldura e passa a fazer parte da chegada ao edifício.
O terceiro prédio pede outro olhar. O Bretagne, concluído no fim dos anos 1950, é obra de João Artacho Jurado, construtor sem diploma de arquitetura que desenhava e erguia os próprios edifícios. Onde Artigas e Levi buscavam contenção, Jurado apostou na cor, nos detalhes decorativos e em formas que fugiam da cartilha moderna. Por muito tempo a crítica o tratou com reserva. Hoje o Bretagne é visitado, fotografado e estudado como um capítulo à parte do modernismo paulistano.
Diferentes entre si, os três chegam a uma resposta parecida para a mesma pergunta: como morar no alto sem perder o chão. Pilotis, jardins que ocupam o térreo e blocos afastados da rua fazem a transição entre a calçada e a casa. É uma gentileza com quem passa e um privilégio para quem mora, porque a entrada do prédio começa no verde e não no portão.
Essa herança ajuda a explicar por que Higienópolis envelheceu bem. Muitos dos edifícios das décadas seguintes repetiram a fórmula do recuo ajardinado e do térreo generoso, e as ruas arborizadas do bairro ganharam uma continuidade rara no centro expandido de São Paulo.
Para quem vive em Higienópolis, essa arquitetura não é passeio de fim de semana. Ela está no trajeto até os cafés da Praça Vilaboim, na calçada da Avenida Higienópolis, na vista de quem desce para a rua de manhã. Morar no bairro é conviver de perto com uma das melhores aulas de arquitetura residencial da cidade.
Fontes
- https://portal.sescsp.org.br/online/artigo/compartilhar/5951_EDIFICIO+LOUVEIRA
- https://istoedinheiro.com.br/conselho-de-sp-veta-predio-na-praca-vilaboim
- https://divisare.com/projects/322153-joao-batista-vilanova-artigas-carlos-cascaldi-adriano-mura-edificio-louveira-1946
- https://portal.sescsp.org.br/online/artigo/compartilhar/9095_BURLE+MARX
- https://journals.usp.br/risco/article/download/44712/48341/53263
- https://www.archdaily.com/pt/tag/artacho-jurado
- https://monocle.com/design/architecture/sao-paulo-bretagne-building-architecture/
- https://prefeitura.sp.gov.br/web/meio_ambiente/w/parques/regiao_centrooeste/5732
- https://www.archdaily.com/pt/896332/edificios-de-higienopolis-ilustrados-por-fabrizio-lenci
Fotos · Capa: Imagem ilustrativa gerada por IA, Editorial Hunter House






