Por Editorial Hunter House · 19 de outubro de 2026
A história começa em 1911, com a criação da Companhia City, abreviação de The City of São Paulo Improvements and Freehold Land Company, empresa de capital inglês que reuniu grandes glebas na zona oeste da cidade. O primeiro empreendimento foi o Jardim América, concebido em meados da década de 1910 a partir do traçado de Barry Parker e Raymond Unwin, os arquitetos ingleses responsáveis por Letchworth, a primeira cidade-jardim da Inglaterra, e pelo Hampstead Garden Suburb, em Londres.
Parker não ficou só no papel. Entre fevereiro de 1917 e janeiro de 1919, morou em São Paulo e trabalhou para a City, estudando o terreno de perto, revisando o desenho do bairro e projetando casas para ele. O período é detalhado numa tese de doutorado da USP dedicada aos projetos que o arquiteto deixou na cidade.
O traçado que saiu dessa temporada rompe com a grelha que dominava São Paulo. Ruas curvas e diagonais formam quadras de tamanhos variados, algumas ruas terminam em pequenos bolsões sem saída e, em certas quadras, o projeto previa jardins internos. Os lotes são amplos e os recuos generosos, de modo que o verde privado das casas e o verde público das calçadas acabam se confundindo.
A ideia vinha do movimento das cidades-jardim, que na Inglaterra do começo do século XX propunha bairros com a tranquilidade do campo e a proximidade da cidade. Em São Paulo, ela encontrou um clima em que as árvores crescem rápido e as copas se fecham sobre a rua, e o resultado amadureceu de um jeito que os próprios autores talvez não tenham imaginado.
Em 1986, o Condephaat, órgão estadual de patrimônio, tombou o Jardim América junto com o Jardim Europa, o Jardim Paulista e o Jardim Paulistano, conjunto que a cidade se acostumou a chamar de Jardins. A proteção ajudou a preservar o traçado das ruas, a arborização e o caráter residencial que distinguem o bairro até hoje.
O efeito se sente na rotina. O Jardim América fica a poucos minutos da Avenida Paulista, da Rua Oscar Freire e dos museus da Avenida Europa, mas dentro dele o ritmo é outro, e as caminhadas acontecem à sombra, de quadra em quadra.
Nas bordas do bairro e nas ruas vizinhas dos Jardins, os edifícios residenciais oferecem outra forma de viver esse desenho, com a vista para as copas que o desenho de Parker e Unwin deixou crescer e a cidade inteira ao alcance da porta.
Fontes
- https://www.gazetasp.com.br/cotidiano/memoria-jardim-america-o-primeiro-bairro-jardim-de-sao-paulo/1117738
- https://www.worldgardencities.com/garden-cities/jardim-américa-são-paulo-brazil
- https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16131/tde-31102022-175426/?lang=en
- https://anais.anpur.org.br/index.php/anaisenanpur/article/download/2269/2248
- https://ricardomartini.substack.com/p/city
- https://periodicos.usp.br/cpc/article/download/119588/127832/250403
- https://www.irib.org.br/?p=103676
Fotos · Capa: Imagem ilustrativa gerada por IA, Editorial Hunter House






